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Santa Maria e o verdadeiro herói

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Hoje é o pior dia da minha vida. Há, exatamente, uma hora, enterrei meu melhor amigo. Não é aquele sentimento de perder alguém que nem conhecemos tão bem, mas que de uma hora para outra se torna inesquecível. Esse era o meu melhor amigo, mesmo!

Sabe quando você não quer ficar em casa, está chovendo, frio, mas algo muito ruim aconteceu e você precisa sair? Quem vai com você é o seu melhor amigo. Ou, o inverso, a pessoa quer muito fazer algo e precisa sair, mas você está tão mal, que o seu melhor amigo fica vendo filme contigo. Independente de qual seja a situação, ele vai tentar dar um jeito de deixar tudo mais divertido. Quando aconteceu algo muito bom na festa que você foi e precisar contar para alguém às cinco horas da manhã? Quem vai atender é o seu melhor amigo, e ainda ficará feliz que você ligou. Quando vai estrear uma balada, filme, teatro ou, simplesmente, você quer comer algo especifico, quem vai? Ele mesmo, o seu melhor amigo.

O meu melhor amigo viveu até os 26 anos, e ele era uma pessoa incrível. Nunca vi alguém não gostar dele. Até emburrado (o que era raro) as pessoas o adoravam, um ser humano sem igual.
Deixe-me contar uma história. Há alguns anos, eu e ele tínhamos perdido nossa parceria para o carnaval e, depois de tanto debatermos, notamos o quanto o mundo estava preso a preconceitos, a tanta pressão, como as pessoas pareciam não saber mais aproveitar a vida. Nós falamos tanto que resolvemos criar um estilo de vida. Nós seriamos Free Lifestyle, teríamos a mente livre, cumpriríamos com o nosso dever, faríamos sempre o bem para os outros, mas teríamos a cabeça livre para experimentar o máximo da vida.

Logo, depois de definir isso, pensamos: “Temos que ir para o carnaval nós dois, vamos fazer milhões de amizades e aproveitar.” Fomos com essa mentalidade e foi exatamente o que aconteceu. A nossa filosofia havia nascido e funcionado. Durante longos anos, vários amigos foram adotando, era incrível como as pessoas gostavam. Um dos cernes do Free Lifestyle era aproveitar ao máximo, pois não sabíamos quando seria o último dia. O do meu melhor amigo foi ontem, mas tenho certeza que ele foi o maior Free Lifestyle de todos, aproveitou a vida como poucos.

Um pouco antes de vir a falecer, nesse que ficou mais conhecido como o pior incêndio do Brasil, ele estava trocando mensagens comigo. Falei o quanto eu queria que ele estivesse junto comigo em São Paulo, e ele me disse que a festa não era a mesma sem a minha presença. Foi quando eu sugeri que ele viesse me visitar, e ele não respondeu. Nisso, eu pensei o quão bom foi ter falado isso para ele, ainda antes do fato, e comecei a notar o quanto as pessoas preferem se xingar, falar mal e criticar, ao invés de elogiar. Parece que critica é normal e elogio é tabu. Um dia qualquer pode ser o último de seu melhor amigo, então, não perca tempo com bobagens e picuinhas. Sorria e aproveite ao máximo essa pessoa.

Recebi a ligação sobre o meu amigo às cinco horas da manhã, já estava acordado havia quase 24 horas. Quando meu mundo desabou, simplesmente peguei meu celular, carregador e sai correndo. Corri como nunca, peguei um taxi, fui até a rodoviária, fui para São Paulo, tomei outro ônibus até o aeroporto. Horas depois, ainda estava correndo desesperadamente, como se fosse mudar algo. Incontáveis horas sozinho, recebendo palavras e mensagens de carinho, mas sem nenhum abraço. Adorei as mensagens, elas nos fazem pensar em coisas boas, mas não conseguem cobrir, nem um pouquinho, a mágoa. Demorei 15 horas para poder chegar à minha cidade natal, onde tudo aconteceu.

Inclusive, gostaria de fazer um agradecimento ao pessoal da TAM, que viu meu estado de pânico e me ajudou. Fizeram todos os procedimentos por mim, deixaram uma funcionária todo o tempo comigo, sempre bastante solícitos e proativos. Merecem os parabéns!

Você chega e não consegue acreditar, parece que aquele brincalhão, aquela pessoa que sempre esteve ali por você, já vai levantar. Mas ela não levanta. Parece que o seu melhor amigo é indestrutível. O meu, imagine só, tinha 1,95m de altura e 130 kg, mas, mesmo assim, esse gigante caiu. O maior Free Lifestyle estava parado, sonhando para sempre. São horas que você fica ali com ele, recebendo pessoas, e nota quanto a pessoa era extraordinária. Tanta gente indo vê-lo, aquela madrugada parece que durou mais que um ano. Lembro de cada minuto e segundo. Você não sente nada, nenhuma dor, frio, gosto. Absolutamente nada.

E então, o tempo que parecia não passar, passou. Com tantas pessoas em volta, você nota como alguém era amado e, quando pegaram o seu caixão, foi demais. Uma chuva de aplausos calorosos, que nenhum artista no mundo recebeu. Foi de arrepiar, e de total merecimento. Senhoras e senhores, era o meu melhor amigo indo para a sua última parada. Esse cara estava nos braços do público.

Chegando ao cemitério, era a vez dos amigos carregarem o caixão. Eu estava à frente, era o primeiro. Lembro e, certamente, jamais me esquecerei de cada passo. Era como se eu estivesse, ainda, esperando que ele batesse para sair dali, ou chegasse correndo, provando que havíamos nos enganado. Eu ficava pensando a quem eu ligaria aos domingos, quem eu convidaria para ir a uma festa horrível, quem ficaria até altas horas vendo luta comigo, quem me ligaria no meio da tarde para falar de um seriado. A cada passo, parecia que eu ficava 10 mil quilômetros mais longe do meu melhor amigo. Foram exatos 87 passos, 87 facadas, 87 anos, 87 risadas, 87 choros, 87 passos mais longos de toda a história.

As palavras sobre ele foram lindas, havia tanta gente. Até o momento em que se fecha a cova e vem o ponto final. O assoprar da vela, da última esperança. Ele se foi. Em corpo, é claro.
Sobre o “verdadeiro herói” do título, é porque eu vi que ser um herói com superpoderes, como na TV, ou com tudo “de mão beijada”, é um pouco mais fácil. Ser herói é como o meu melhor amigo que, todos os dias, fazia muita gente se sentir melhor, sempre tinha uma sorriso e uma piada boba para melhorar o dia, sempre iria onde fosse necessário para ajudar. Notei que, ser herói, é ser uma pessoa melhor para os outros todos os dias. Por isso, meu amigo foi herói. Ele foi tão bravo que, no teatro da vida, onde deu um show digno Oscar de melhor ator de todos os tempos, ele encerrou com chave de ouro. Não morreu asfixiado, simplesmente. Ele se salvou, sobreviveu, mas resolveu voltar para o perigo e ajudar os outros que, em grande parte, ele nem conhecia. Esse ser humano sem precedentes, chamado Vinicius Montardo Rosado, o Vini, salvou 14 pessoas, mas não conseguiu salvar a si próprio.

Hoje, meu melhor amigo faleceu como um exemplo de pessoa, aquela que todos queriam mais, que faz do mundo um lugar melhor. E, como um cara alegre, sonhador e meu grande amigo, vou honrá-lo sempre. Esse texto será as primeiras paginas do meu livro, o qual ele me apoiou intensamente para escrever e ajudar todos os jovens do Brasil a alcançarem seus sonhos. Nem que passem semanas seguidas, será algo digno de sua homenagem, da honra de conhecê-lo. Se um dia tiver um filho, obviamente, levará o nome de um herói chamado Vinicius.
Descanse em paz, Vini, eu juro que te deixarei orgulhoso!

Por Bruno Perin, de Santa Maria, RS

 
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