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O prazer em morrer

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   Nos mosteiros mais ascetas no auge da sociedade medieval, muitos monges esperavam pela morte com alegria, pois consideravam esta vida um roteiro de lágrimas, suportável apenas como a transição para a felicidade eterna, que alcançariam na paz da vida celestial. Nesse ambiente de ascetismo e de desprendimento dos valores desta vida, os monges mais convictos desta visão de mundo, recebiam seus sofrimentos e doenças como bênçãos do céu, que indicavam a proximidade da passagem desta vida para outra mais gratificante. Quando estava no catre da cela de um monge moribundo, que dizia estar sua morte se aproximando, um jovem monge cometeu o grave pecado da inveja, ao sentir-se invejoso diante da libertadora morte do doente terminal. Penitenciou durante vários dias, até sentir-se redimido desse pecado ao entendê-lo como indicação de que ainda não estava preparado para morrer feliz. Este ideal de esperar serenamente pela morte como meio de libertação, permaneceu como a ética dominante nos mosteiros medievais, e influenciou a sociedade desse período medieval, através de versões mais amenas, que conciliavam a valorização desta vida com o anseio de felicidade na vida após a morte.
   Toda ética resulta da prática social dominante em um determinado período histórico. E na sociedade medieval, a desvalorização desta vida resultava das fragilidades daquele período, incapaz de proporcionar à população um mínimo de dignidade nesta existência. Agrária, feudal, quase sem vida urbana, aquela sociedade mantinha o povo na miséria, com fome endêmica, perseguida por catástrofes irreversíveis, como as constantes epidemias incuráveis, que matavam parcelas significativas da população, e incapaz de enfrentar as injustiças dos prepotentes senhores feudais, que humilhavam os servos da gleba. Restava aos súditos, porque a população miúda era súdita dos nobres e não cidadãos livres, a esperança da felicidade na vida futura, à qual se apegavam como o último recurso para manter a dignidade. Embora a exploração extrema dos servos pelos nobres feudais estimulasse revoltas populares ao longo da sociedade feudal, inúmeras vezes essas lutas foram vencidas pelos dominadores. E os fracassos constantes destas revoltas, redobrando as humilhações dos fortes sobre os fracos, serviam de argumentos favoráveis a quem propagava que a felicidade nesta vida era mesmo impossível. Mas as crises da frágil economia feudal sucederam-se continuamente e possibilitaram o surgimento de uma economia urbana e comercial na sociedade europeia, que lentamente eclipsou este passado feudal e motivou o surgimento da sociedade moderna, baseada nas dinâmicas relações capitalistas. E foi assim que os súditos dos reis tornaram-se cidadãos, cada vez mais livres e insubmissos reivindicantes dos seus direitos, destacando-se o direito de ser feliz aqui nesta existência. A moral ascética da sociedade medieval cedeu espaços para o hedonismo moderno, na esteira da formação de uma sociedade científica e altamente tecnológica capaz de sustentar a reivindicação de vida saudável, prolongada e feliz aqui no planeta Terra, e, lá no longínquo final destes limites, uma morte decente, com dignidade, sem dores e humilhações, conciliada com a vida feliz que tivemos. Quando estas promessas da sociedade moderna se tornarem uma prática social vigorosa, haverá o retorno do prazer em morrer, mas motivado pelo desfrute das cativantes belezas desta vida,com prazo de validade e inevitável limite de duração, aceitos como inerentes à transitoriedade da nossa existência. Eis a ética e a poética da modernidade.

 
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