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Discurso cínico do poder para o professor

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   “-A escola vai bem, muito bem, com alunos criativos, que cobram um bom ensino do professor. A escola está bem equipada materialmente, e com uma equipe eficiente de burocratas: supervisores preparados para orientar pedagogicamente o professor, especialistas em educação pós-graduados nas melhores universidades do país e munidos com as mais eficientes experiências pedagógicas capazes de suprir todas as deficiências do ensino. O professor tem garantida sua estabilidade no trabalho, recebe um salário acima do nível salarial da maioria dos assalariados brasileiros, pode recorrer às associações de pais e mestres para conseguir um bom relacionamento entre a escola e as famílias dos seus alunos. Há escolas públicas em todos os municípios brasileiros, acessíveis às crianças nas diversas faixas etárias, e agora o governo se prepara para estruturar no país o ensino em tempo integral. Então, por que o professor reclama? Porque não avalia corretamente sua situação de assalariado privilegiado em um país onde os demais trabalhadores suportam péssimas condições de trabalho. O professor tem uma jornada de trabalho menos severa, com períodos de férias mais extensas que as dos demais trabalhadores brasileiros. É protegido por uma legislação generosa, aperfeiçoada ao longo dos anos por eméritos legisladores. E não sendo suficiente esta garantia, pode recorrer a suas associações de classe, como a combatente APEOESP, respeitadíssima pelos sucessivos governos estaduais. Ora, professor... Você é um profissional graduado, mas incapaz de desfrutar destes privilégios. E apesar de todas essas condições que favorecem o seu trabalho em classe, o professor reclama dos seus alunos, das alegadas péssimas condições de trabalho, da sua solidão diante da indiferença dos escalões superiores da Secretaria da Educação, insensíveis a suas dificuldades em classe. Ora, professor... Seus alunos são criaturas em busca de realização, tolhidas por famílias alheias às suas necessidades existenciais e uma sociedade anônima, preocupada mais em se reproduzir economicamente do que em educar adequadamente sua juventude. Mas o insatisfeito professor desconhece que o Estado democrático, no qual a Escola é uma instituição sólida, aí está, com toda sua sofisticação para ampará-lo dessas agressões, garantindo uma educação de qualidade aos seus alunos. Ora, professor... Aproveite a folga do seu Dia para meditar sobre os privilégios de sua profissão. Ora, professor... Você é feliz, só que não sabe. Desperte para a felicidade de ser professor em um país tão generoso como o nosso, e sua vida mudará para sempre e para bem melhor.”
   Este discurso cínico do poder é o recurso retórico que o Estado sempre utilizou para dominar a consciência dos seus súditos, desde os tempos dos faraós no Egito antigo até os dias de hoje, nas gestões públicas que se sucedem em cada país. Como as estrelas, o Estado está muito distante do cotidiano escolar para se preocupar com os dramas existenciais do professor, mas suas regras burocráticas são eficazes para silenciar a criatividade deste profissional. O Estado é corporativo, e assim continuará sendo: -autoritário e monologante, pois apenas aparenta dialogar quando forçado ao diálogo, principalmente com seus funcionários. O grito de liberdade do professor não está em suplicar ao Estado, mas em sua integração na luta dos demais trabalhadores assalariados por melhores condições do seu trabalho, uma libertadora vivência solidária, que revigora seu júbilo de ensinar e de aprender.

 
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