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Nos alegres tempos das dificuldades

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Tempos difíceis aqueles da minha infância. Morava na Rua do Patrocínio em Itu, habitada por famílias de assalariados, cuja maioria trabalhava em uma das três tecelagens próximas dessa via. Seus moradores descendiam de africanos ou de italianos, com raros descendentes de espanhóis e portugueses. Dizia-se que os idiomas oficiais dessa rua eram o italiano e o nagô. Meu pai era ferroviário, e como seu salário estava acima do salário dos trabalhadores das tecelagens, éramos considerados ricos, mesmo não sendo. Tínhamos um padrão de vida melhor, mas sem regalias. Muitas vezes almocei arroz e feijão olhando para a única mistura, um pastel de carne, que deixava para comer na hora do café. Minha tia Ide, fanática por programas de rádio, ligava o rádio em alto volume para escutar a transmissão de onde estivesse. Nossa vizinha, dona Luizinha, mãe de família numerosa, ficava feliz com esse som alto, pois não precisava ligar seu rádio, e assim não gastava energia elétrica. Tempos difíceis aqueles que as famílias precisavam economizar centavos, tostões e patacas. Depois das aulas, as crianças brincavam a tarde inteira na rua, quase sempre jogando futebol, que trazia muita alegria, mas causava muita confusão. As brigas entre os jogadores eram constantes, pois não havia árbitro para disciplinar as partidas. Então, todos ditavam as regras que lhes convinham, prevalecendo a lei dos mais fortes. E quando a bola quebrava a vidraça da janela de uma casa, estava armada a confusão, principalmente se a prejudicada era a dona Dada, uma mulher baixinha e encrenqueira, que saia distribuindo vassouradas entre nós. E o mais temido nesses jogos era a reação drástica do Zé Grofe, um vizinho alcoólatra intratável, que jogava água suja em nós. E quem pagava a conta desse desaforo era a sua inocente mãe, alvo preferido do nosso recheado repertório de nomes indecentes. Tempos difíceis eram aqueles de moleques de rua. A vizinhança era turbulenta, alimentando diariamente fofocas e maledicências mútuas, mas quando alguém adoecia ou morria, a solidariedade prevalecia. As mortes dos vizinhos eram sentidas coletivamente, como se tratassem da morte de parentes. Como ninguém tinha plano funerário, todos se cotizavam para ajudar a pagar as despesas do enterro. E à noite, ninguém faltava nas novenas, puxadas por dona Colaquinha. E as crianças também compareciam a essas rezas, menos devotas e mais interessadas no pedaço do bolo de fubá servido nessa ocasião, cada noite patrocinado por uma vizinha da família enlutada. Tempos difíceis eram aqueles, que até a morte dependia da caridade alheia. O outro nosso vizinho era o lar de uma família com seis filhos, e todos passavam dificuldades, pois o pai dessa numerosa prole ganhava pouco na tecelagem, e seu filho menor chorava porque estava enjoado de só comer arroz com feijão e cebola frita. Tempos difíceis eram aqueles, que um pai chorava silencioso o lamento do seu filho. Mas aquela vizinhança ouvia diariamente as rádios, que transmitiam músicas populares alegres e irreverentes, cantadas por todos como forma de exorcizar suas dores. E assim cantavam “levanta, sacode a poeira e da a volta por cima”. Ou “ Quem mora lá no morro está pertinho do céu”, ou “Sassaricando, eu levo a vida no arame”, ou também “Mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar.” E de música em música aquela turbulenta vizinhança da nossa rua passava os anos rindo das piadas que ouviam, soltando rojão nas festas juninas, pulando na rua durante o carnaval, penitenciando na Quaresma, vendo os Desfiles Cívicos de 7 de Setembro, comemorando Natal, Semana Santa, os aniversários dos filhos, e nos domingos almoçando cuscuz ou macarronada, e torcendo pelo seu time amado. Eram alegres aqueles tempos de dificuldades.

 
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