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Dona Colaquinha

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Dona Colaquinha chamava-se Escolástica, mas para as amigas e vizinhos era Colaquinha. Solteira, morava com duas irmãs também solteiras, e sua residência fazia fundo com o quintal da nossa casa, em Itu. Pertencia a uma família de tradição católica, tinha um primo padre, e frequentava diariamente a igreja do Bom Jesus.
Escolástica, seu nome de batismo, surgiu pela força dessa religiosidade familiar, Colaquinha prevaleceu por conta da sua própria religiosidade, tão participativa e devota, que levou a opinião pública a considerá-la uma beata. Indiferente a esses tratamentos, Colaquinha era feliz ao dedicar-se voluntariamente à comunidade. Além de beata, era também benzedeira, e benzia com sucesso principalmente as crianças adoecidas. Benzia de dor de dente a mau olhado e inveja, passando por sarampo, resfriado, caxumba, frieira, unha encravada, mas não atendia pedidos de arranjos de casamentos ou de antecipação do resultado do jogo do bicho, pois estas eram artes do diabo. No quintal da casa de Colaquinha havia um pomar com variadíssimas frutas, que satisfaziam os apetites das crianças que brincavam no quintal da minha casa. Vorazes, consumíamos essas delícias, escondidos de Colaquinha, que fingia não notar essa apropriação indevida. Além de benzer, frequentar missas diárias, orar pelos vizinhos e puxar o terço nas novenas, era doceira exímia, e tinha uma clientela numerosa, seduzida pelos seus apreciados doces caseiros. Mas nós, meninos turbulentos, não reconhecíamos essas qualidades de Colaquinha, e estávamos sempre atormentando sua santa e paciente vida. Brincávamos no quintal da sua casa, mas muitas vezes excedíamos nessas brincadeiras. Foi assim que certa vez, entusiasmados com o épico filme Ivanhoé, baseado no romance homônimo de Walter Scott, que assistimos em uma sessão do cine Sabará, resolvemos imitar uma cena dessa película, quando o exército comandado pelo nosso herói conquistou o castelo inimigo disparando flechas incendiárias nesse prédio. Só depois de muita briga, elegemos o nosso Ivanhoé, que teve a aplaudida ideia de produzir flechas incendiárias que foram atiradas em nosso imaginário castelo, um velho e desabitado casarão vizinho da casa de Colaquinha.
Atingido pelas flechas incendiárias, o casarão começou a pegar fogo, e quando o incêndio aumentou, o indômito Ivanhoé ordenou a suspensão do ataque e a fuga imediata do seu exército. Aflita com a iminência do fogo se alastrar até sua casa, Colaquinha pediu auxílio aos vizinhos, que conseguiram apagar o incêndio. Colaquinha ficou aliviada, mas não censurou o valente exército de Ivanhoé, e até ficou com muita pena de nós quando minha mãe proibiu nosso exército de brincar no quintal vizinho.
Sei que Colaquinha ainda está viva porque ela ressurgiu mansamente em meu inconsciente, revelada em um sonho de recordações, que reativou minha memória. Nesse sonho, Colaquinha confirmou sua confissão feita há muito tempo para minha mãe: disse ela naquela ocasião que divertia-se ao observar pela fresta da janela as crianças roubando as frutas do seu pomar, pois ela sentia-se protagonista daquela doce travessura infantil. Confio mais na veracidade do meu sonho do que na autoridade da minha memória, pois Colaquinha sempre afirmava: “-Os sonhos não mentem jamais.”

 
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